Cine Brasília: a história da cidade contada na telona

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O Cine Brasília nasceu junto com a cidade. A primeira sessão foi realizada um dia depois da inauguração da nova capital, em 22 de abril de 1960 (saiba mais sobre a história do cinema no vídeo abaixo). O espaço faz parte do projeto arquitetônico modernista desenhado por Oscar Niemeyer. Mais do que isso. Está incorporado no inconsciente dos brasilienses e de representantes da classe cinematográfica brasileira do país como símbolo cultural local. Uma máxima que até já virou clichê, de tão proferida, é a de que “o Cine Brasília é o templo do cinema brasileiro”. Não há quem discorde.

“O Cine Brasília é um marco do cinema da cidade. Tinha a função, no começo, de entreter os servidores que vieram para trabalhar na capital”, conta Vanderlei da Silva, coordenador do audiovisual da Secretaria de Cultura e Economia Criativa do DF.

A estreia foi marcada pelas gargalhadas do público que conferiu as comédias Anáguas a Bordo (1959), com os galãs Cary Grant e Tony Curtis, e o pastelão A Canoa Furou (1959), protagonizado pelo astro do gênero Jerry Lewis. Com o tempo, o Cine Brasília, o último cinema de rua do DF, ganhou missões mais nobres. Entre elas, a de valorizar a exibição de produções nacionais, especialmente filmes regionais. “Aqui é a casa deles”, garante o gerente Rodrigo Rodrigues Torres, também responsável pela programação dos filmes. “E, principalmente, dos trabalhos financiados pela Secretaria de Cultura via Fundo de Apoio à Cultura”, reforça.

Esta semana, por exemplo, ainda dá tempo dos brasilienses e turistas de passagem pela capital conferirem a mais recente sensação do cinema nacional, o drama de fantasia pernambucano Bacurau, da dupla Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles. Em outras ocasiões são reexibidos clássicos restaurados que marcaram época na cinematografia mundial, como o marco da nouvelle vague, Acossado (1960), de Jean-Luc Godard, ou do Cinema Novo, Terra em Transe (1967), de Glauber Rocha. Obras referenciais que contam com um público seleto.

“Só comecei a frequentar o Cine Brasília em 1982, no Festival de Brasília do Cinema Brasileiro. Foi o ano em que Tabu, de Júlio Bressane, foi o vencedor”, lembra a pesquisadora e cineclubista Berê Bahia, autora de um catálogo que conta três décadas do mais importante evento cinematográfico do país, entre 1965-1997. “O Cine Brasília é um dos meus recantos preferidos da cidade. Tem um espaço físico privilegiado, além de ser um cartão-postal”, lembra.

Com preço de ingresso bem atraente, um terço (1/3) a menos do valor médio das entradas em outros cinemas da cidade, o Cine Brasília também se caracterizou por exibir filmes que fogem dos grandes circuitos, o chamado mainstream. Aposta na exibição de produções internacionais com temáticas reflexivas, grande parte vindas de embaixadas cujo países apresentam uma cinematografia rara e original, além de documentários, gênero de pouca inserção no mercado. “O Cine Brasília não é um cinema comercial convencional”, explica Rodrigo Rodrigues Torres. “A gente tenta dar espaço a filmes que têm dificuldades de circular na praça”, continua.

A outra missão do Cine Brasília, patrimônio imaterial da cidade, é o de trabalhar a formação de público. Para tanto, o espaço abraça dois projetos importantes em parceria com as secretarias de Cultura e Educação dentro do programa Cultura Educa. Ambos direcionados ao público jovem da rede pública do DF. Um deles, Concertos Didáticos, traz apresentação especial da Orquestra Sinfônica de Brasília para a garotada. O outro, Escola vai ao Cinema, leva todas as semanas uma média de 500 alunos para assistir a uma sessão no cinema. “Muitas dessas crianças nunca haviam ido ao cinema”, revela o gerente. “A gente tem apostado nas futuras gerações”, diz, orgulhoso.

A casa do Festival de Brasília

Nada representa mais a cara do Cine Brasília, no entanto, do que o Festival de Brasília do Cinema Brasileiro. Conceitualmente idealizado no seio da Universidade de Brasília (UnB) pelo historiador e crítico de cinema Paulo Emílio Salles Gomes, junto com os intelectuais da academia, a mais importante mostra de cinema do país surgiu cinco anos depois da inauguração do prédio, em 1965, com o nome de Semana do Cinema Brasileiro. O filme vencedor daquela primeira edição foi o drama social, A Hora e a Vez de Augusto Matraga, filme de Roberto Santos baseado na obra de Guimarães Rosa.

“O Cine Brasília acomoda um dos maiores festivais de cinema do país. Ele sempre foi feito por meio da Secretaria de Cultura, na antiga Fundação Cultural. É um produto do Governo do Distrito Federal”, reforça o coordenador do audiovisual da Secretaria de Cultura e Economia Criativa, Vanderlei da Silva. “Talvez o Festival não teria o glamour que tem se não fosse pelo Cine Brasília”, observa.

E, em seus 52 anos de edição, glamour foi o que não faltou no Festival, mas não apenas isso. Beldades como Leila Diniz, Sônia Braga, Carla Camuratti e Patrícia Pillar desfilaram pelo corredor do cinema, assim como os cineastas Arnaldo Jabor, Júlio Bressane, Rogério Sganzerla, Ruy Guerra e Vladimir Carvalho. Seu filme O País de São Saruê teve a exibição proibida em 1971, por conta das críticas políticas. O imbróglio culminou com o cancelamento das três edições seguintes do evento: 1972, 1973 e 1974.

“A mostra teve vários momentos importantes”, conta Vanderlei da Silva, do Audiovisual da Secretaria de Cultura. “O Cine Brasília resistiu a muitas tempestades. Teve momentos de glória, crítica, descrédito, rejeição”, escreve Berê Bahia no livro 30 Anos de Cinema e Festival – A História do Festival de Brasília do Cinema Brasileiro (1965 -1997).

Estrutura e funcionamento

Os principais ambientes do Cine Brasília, que é administrado por 12 servidores, fora o pessoal terceirizado da limpeza e segurança, são o hall de entrada, bem próximo as quadras 106/107 Sul. A localização dá um clima de cinema de bairro ao local. Sorte da vizinhança, que pode aproveitar o grande palco, a telona (14m x 6,30m), a enorme sala de público com suas 619 cadeiras e, além disso, na parede, o que poucos sabem, algumas intervenções de Athos Bulcão. No segundo andar, a sala de projeção, equipada com modernos equipamentos de exibição.

A mudança do projetor de película 35mm, um charme e importante símbolo de resistência do mais antigo cinema da cidade, é um filme à parte na história desse lugar emblemático. Isso porque os frequentadores cativos, cineastas e produtores, enfim, amantes da Sétima Arte, não queriam saber da novidade visual. Venceu o futuro, a modernidade, porém. O projetor digital 2k, que exibe filmes no formato DCP, ou seja, digital cinema packpage, um formato padrão do cinema digital, não deixa nada a desejar em qualidade de som e imagem a nenhum cinema da cidade.

“Todos os estabelecimentos do gênero passaram por essa adaptação que marcou a segunda década do século 20”, conta o gerente Rodrigo Torres. “Nossa projeção do ponto de vista técnico é excelente. Para continuar com sua condição social de exibir filmes, tivemos que passar por essa transição”, emenda.

FONTE:AGÊNCIA BRASÍLIA

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Jornalista de Entretenimento e Streamer. @EldoGomes está sempre ao vivo no 🔴 YouTube.com/eldogomestv. Blogueiro há 11 anos sobre Turismo, Entretenimento e Política,