Pandemia deve ajudar Trump a cumprir promessa de campanha e endurecer regras imigratórias de forma definitiva nos EUA

Desde o início da pandemia o Presidente americano já bloqueou a emissão de ‘green cards’, alterou protocolos, paralisou a emissão de vistos, restringiu entrada de viajantes e, mais recentemente procura implementar mudanças no processo de asilo no país.

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, está a um passo de tornar permanentes as restrições à imigração impostas pela pandemia do Coronavírus. Desde o início do isolamento social, a gestão Trump tem adotado uma série de restrições no setor da imigração. No início do mês, o governo apresentou projeto para tornar permanentes as medidas mesmo após a pandemia. De acordo com a Casa Branca as medidas são necessárias para conservar empregos dos americanos no médio e longo prazo. Já são mais de 36 milhões de desempregados nos EUA.

No último dia 10, os departamentos de Justiça e de Segurança Interna apresentaram um plano substituto às regras de “emergência” adotadas durante a crise do coronavírus, que permitiria à administração Trump tornar permanentes algumas das mudanças. Para o jornalista brasileiro que pesquisa a imigração americana, Rodrigo Lins, o endurecimento de normas imigratórias é certo, e, neste momento contará com maior apoio popular nos EUA.

“Durante a última eleição nos EUA, muitos americanos não endossaram às propostas de tolerância zero à imigração defendidas por Donald Trump. Agora, o cenário é outro. Não por outra razão, o Governo tenta normatizar as regras que inicialmente foram propostas como emergenciais. Uma coisa é certa, quem pretende emigrar aos EUA e viver no país após essa pandemia deverá fazê-lo com mais planejamento e buscar prioritariamente a legalidade”, pondera Lins que em 2019 lançou o livro: ‘Internacionalize-se: parâmetros para trabalhar legalmente nos EUA’.

Para o jornalista, escritor e pesquisador, o cenário atual já prova que a vida de imigrantes indocumentados – aqueles que não possuem autorização legal para residir e trabalhar nos Estados Unidos, não está tão fácil. “Sem conseguir ajuda financeira do Governo americano, sem sinal de ajuda do Governo do Brasil, há muito desemprego entre os imigrantes brasileiros e, muitos deles, inclusive já regressaram ao país por não mais conseguir permanecer nos EUA sem emprego”, afirma Rodrigo Lins radicado na Flórida.

Paradoxo da Legalidade pela Sobrevivência

No início de junho, o décimo quinto avião com imigrantes brasileiros deportados dos Estados Unidos aterrissou no Brasil. Enquanto isso, centenas de outros também brasileiros legalmente residindo no país norte americano – portadores do Green Card – recebiam por correio ou depósito em conta os cheques com a ajuda anunciada pelo Presidente americano. Para Rodrigo Lins, “um claro paradoxo que prova a legalidade imigratória como fator sinequanon para imigrantes sobreviverem nos EUA não apenas durante esta pandemia”.

Segundo o jornalista e pesquisador, pouco mais de três meses após o isolamento social e fechamento do comércio imposto pelas cidades americanas, os indocumentados seguem na linha de frente do desamparo das políticas públicas do Governo. Situação que empurrou aos estados a garantia de ajuda mínima a esta comunidade imigrante não autorizada a viver nos EUA.

“O primeiro esforço de financiamento estatal para indocumentados já teve início na Califórnia. Em maio, imigrantes indocumentados afetados pela pandemia começaram a receber auxílio financeiro. O governador do estado Gavin Newsom anunciou em abril o Disaster Relief Fund – fundo de auxílio a desastres de coronavírus – no valor de US$ 125 milhões para apoiar imigrantes indocumentados que não eram elegíveis para verificações de estímulos federais e benefícios de desemprego devido ao seu status de imigração”, explica Rodrigo Lins.

O fundo combina US$ 75 milhões em doações estaduais com US$ 50 milhões de organizações privadas e espera-se que beneficie cerca de 150.000 adultos sem documentos, segundo o site do estado. Cerca de 150 mil imigrantes indocumentados vão receber o auxílio. O benefício único fornecerá US$ 500 em suporte por adulto, com um limite de US$ 1.000 por família.

Sem Refúgio

Em abril deste ano, o Presidente Trump emitiu uma ordem executiva suspendendo temporariamente a emissão de green cards para pessoas de fora dos Estados Unidos. A ordem executiva com duração entre 30 e 90 dias com chances de renovação e está aplicada àqueles que buscam status de imigração permanente. Trabalhadores como os dos vistos H1-B devem ser abordados em uma ação separada, disse a autoridade.

Segundo dados oficiais, os Estados Unidos concederam o status de residente permanente a cerca de 577.000 pessoas em 2019 e 462.000 vistos temporários no mesmo período, dados que revelam uma queda significativa em relação aos 617.000 concedidos em 2016. A poucos meses das eleições, restringir a imigração continua sendo um tema central da campanha republicana para a reeleição.

Para o jornalista e pesquisador Rodrigo Lins o caminho está cada vez mais estreito e seletivo. “Esse cenário nos mostra que a realidade imigratória no país norte-americano ficará, nos próximos anos, mais cara e menos tolerante com indocumentados. Um fator que precisa ser considerado, principalmente por brasileiros, antes de deixar o país rumo ao ‘sonho americano’” explica.

Além disso, o presidente pretende limitar certos vistos emitidos a imigrantes que procuram trabalho temporário no país. Trump já afirmou em algumas entrevistas que deseja que os cidadãos americanos tenham trabalho e que não tenham concorrência.

Bloqueio de Fronteiras

No mês passado, o governo estendeu um bloqueio de fronteira que impediu a entrada de dezenas de milhares de refugiados pela fronteira sudoeste. O Departamento de Segurança Interna disse que a pandemia “expulsou” mais de 20.000 imigrantes mexicanos que não conseguiram fornecer o devido processo legal.

Ainda neste mês a secretária de Educação, Betsy DeVos, já proibiu faculdades de conceder bolsas de auxílio da pandemia aos estudantes estrangeiros sem documentos, incluindo pessoas protegidas pelo programa Ação Diferida para Chegada da Infância (que permite permanência ilegal no país a pessoas que foram trazidas pelos pais quando crianças).

*Rodrigo Lins é Mestre em Comunicação, Especialista em linguagem audiovisual, Professor universitário, jornalista e escritor, reside legalmente nos Estados Unidos e é autor do livro “Internacionalize-se: Parâmetros para levar a carreira profissional aos EUA legalmente” lançado em 2019. Dirige a agência de Comunicação, Marketing e Imprensa multinacional Onevox Creative Solutions com sede nos EUA.