Em um momento de crescimento da construção civil no Brasil, as técnicas tradicionais de arquitetura japonesa apresentam uma lógica contrária à rapidez das pré-fabricações, focada na precisão, na longevidade e no uso de madeira. O kigumi, como é chamado o sistema milenar japonês de encaixes de madeira, permite unir peças sem o uso de pregos, parafusos ou cola, possibilitando a criação de grandes construções a partir da tensão e do equilíbrio da junção das peças. Na região metropolitana de São Paulo, existem templos, pavilhões e espaços culturais tradicionais e contemporâneos construídos a partir dessa técnica, demonstrando a versatilidade de usos do kigumi, que vai desde grandes estruturas e edifícios até móveis de uso doméstico e itens de decoração, como treliças.
O contraste na região paulista ganha relevância diante do crescimento do setor de construção civil, que avançou em 2,9% no primeiro trimestre de 2026 em relação ao último trimestre de 2025, maior taxa registrada nos últimos dois anos, segundo dados do Produto Interno Bruto (PIB) divulgados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Reconhecido desde 2020 como Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade pela UNESCO, o kigumi também é uma possibilidade para soluções mais sustentáveis na arquitetura contemporânea.
Às margens da Represa Billings, na cidade de Ribeirão Pires, a Torre de Miroku, maior torre japonesa do Brasil, com 32 metros de altura, emprega a técnica de construção de encaixes em madeira em seus cinco telhados sobrepostos, que representam as partes do corpo sagrado. Já a estrutura interna é construída de concreto armado, aliando a tradição com a engenharia moderna, tornando-se a primeira do mundo a possuir um vão livre interno até o topo. Inspirado no tempo Horyu-ji, da cidade de Nara, e parte do Templo Luz do Oriente, o espaço só pode ser acessado de barco em épocas de cheias da represa.
Já na capital paulista, um dos principais exemplares das técnicas construtivas nipônicas é o Pavilhão Japonês do Parque Ibirapuera. Inspirada pelo Palácio Katsura, em Kyoto, a edificação assinada pelo arquiteto Sutemi Horiguchi foi presente do governo japonês pela comemoração dos 400 anos da cidade de São Paulo. Trazida para o Brasil desmontada e com materiais enviados de navio diretamente do país nipônico, sua estrutura foi montada a partir dos encaixes de madeira com a ajuda de voluntários imigrantes, evidenciando outra característica do kigumi: a possibilidade de desmontar e montar as edificações erguidas a partir da técnica. O espaço, composto por salão principal e salas anexas, além de um jardim japonês com árvores de cerejeira (sakuras) e um lago de carpas coloridas (nishikigoi), é um dos únicos pavilhões que mantém as características tradicionais fora do Japão.
Curiosos sobre o tema ainda podem conhecer mais sobre o kigumi na exposição "Imbuídos das forças das florestas do Japão – Kigumi: revelando a carpintaria por trás da junta de madeira", em cartaz na Japan House São Paulo até dia 13 de setembro, com entrada gratuita. A mostra exibe em detalhes mais de 50 tipos de encaixes em madeira, utilizados na sustentação de tantos templos, santuários e edificações em estilo tradicional japonês. Os sistemas de encaixes são demonstrados com precisão tecnológica e podem ser compreendidos a partir de exemplos interativos, da reprodução de parte da Ponte Kintaikyō e de uma treliça de encaixes diminutos.
A Japan House São Paulo também é, por si só, um exemplo de construção por meio dos encaixes tradicionais: sua fachada, projetada pelo arquiteto Kengo Kuma e inspirada pelo Pavilhão Japonês, localizado no Parque do Ibirapuera, foi inteiramente criada com a técnica. Seus 36 metros de largura e 11 de altura foram erguidos por artesãos especializados na arte dos encaixes em hinoki (cipreste japonês), e é um dos principais exemplos dos usos contemporâneos da técnica milenar na capital paulista.
Serviço:
Torre de Miroku – Templo Luz do Oriente
Onde: Avenida Palmira, 450 – Balneário Palmira, Ribeirão Pires (SP)
Quando: sábados, domingos e feriados, mediante programação e disponibilidade
Entrada: R$ 56 por pessoa. O acesso ao complexo é feito por barco, com embarque na marina Tahiti Náutica Club
Mais informações no site: https://www.torredemiroku.com.br/about-3
Pavilhão Japonês – Parque Ibirapuera
Onde: Avenida Pedro Álvares Cabral, s/nº – Parque Ibirapuera, Portão 3 e 10, São Paulo (SP)
Quando: quinta a domingo e feriados, das 10h às 17h
Entrada: R$ 10 – R$ 50, com entrada franca às quintas-feiras
Mais informações no site: https://bunkyo.org.br/br/pavilhao-japones/
Exposição "Imbuídos das forças das florestas do Japão – KIGUMI: revelando a carpintaria por trás da junta de madeira"
Em cartaz até 13 de setembro
Onde: Japan House São Paulo, 2° andar – Avenida Paulista, 52 – Bela Vista, São Paulo (SP)
Livre e gratuito
Mais informações no site: Imbuídos das forças das florestas do Japão – KIGUMI: revelando a carpintaria por trás da junta de madeira
Japan House São Paulo
Onde: Avenida Paulista, 52 – Bela Vista, São Paulo (SP)
Quando: terça a sexta-feira, das 10h às 18h; sábados, domingos e feriados, das 10h às 19h
Livre e gratuito
Mais informações no site: https://japanhousesp.com.br/








