A corrida corporativa pela transformação digital tem revelado um desafio estrutural nas organizações: a ilusão de que a tecnologia, por si só, é capaz de corrigir fragilidades operacionais. Em vez de solucionar gargalos, a automação de processos financeiros sem a devida maturidade de gestão pode acelerar e amplificar erros em série, afetando diretamente o caixa, o compliance fiscal e a reputação das companhias.
O alerta ganha força diante dos dados do Panorama do Contas a Pagar, da Qive. De acordo com o estudo, 24% das empresas brasileiras ainda despendem mais de dez horas por semana em tarefas puramente manuais, como entrada de dados, conferências, buscas de informações, cadastros e conciliações.
Para Erika Daguani, CPO da Qive, apesar de o mercado priorizar a automação com foco em velocidade, escala e redução de custos, o setor ainda exige critérios rígidos, pelo impacto em auditorias, contratos e riscos regulatórios. "Uma informação incorreta inserida precocemente no fluxo pode passar por aprovações automatizadas e gerar divergências documentais graves antes de ser detectada. Por isso, esse cenário acende um sinal de atenção sobre o comportamento das lideranças, que frequentemente utilizam a tecnologia como um atalho para compensar a desorganização interna ou a baixa qualidade dos dados de origem", explica a especialista.
Na prática, automatizar um fluxo ineficiente significa institucionalizar exceções e ocultar a causa raiz dos problemas. E essa fragilidade reflete-se também na segurança financeira: um relatório global do Institute of Financial Operations & Leadership (IFOL) revelou que 65% dos profissionais do setor conhecem alguma empresa ou indivíduo que foi vítima de fraude no contas a pagar nos últimos cinco anos. O dado reforça que a vulnerabilidade não decorre da falta de tecnologia, mas sim de lacunas de governança e da confiança excessiva em fluxos não auditáveis.
"Sistemas não substituem o discernimento. Quando a liderança terceiriza a decisão para a tecnologia, o senso crítico desaparece. O processo passa a parecer confiável porque ficou mais rápido, não porque ficou mais maduro", aponta Erika.
Por isso, o debate atual do mercado não gira em torno da necessidade de automatizar, mas sim de como e quando fazê-lo. Nesse contexto, a tendência é que a Inteligência Artificial e a automação sejam aplicadas principalmente a decisões repetitivas e fluxos padronizáveis, mantendo o julgamento humano protegido por uma arquitetura clara de governança.
Para Erika, as empresas que buscam uma transição segura devem contemplar quatro pilares essenciais: o desenho prévio de processos e papéis bem definidos; trilhas de auditoria claras e dados de alta qualidade na origem; mecanismos de exceção que preservem a análise crítica humana; e adoção da governança como parte do projeto, e não como uma camada posterior.
O ponto, segundo a especialista, não é frear a automação, mas garantir que ela seja aplicada sobre processos estruturados, dados confiáveis e controles auditáveis. "A tecnologia atua como um multiplicador que gera eficiência em ambientes maduros e ruído em ambientes frágeis. E as organizações de alta performance têm optado por não automatizar tudo de uma vez. A prioridade reside em reestruturar a base operacional antes de buscar ganho de velocidade, consolidando o dado e a governança como os verdadeiros pilares da confiança corporativa", finaliza a CPO.







